GEBAs Crônicas de Geb
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Arquivo de ÍRIS Livro 1 / 3

GEB A Crônica do Terceiro Planeta

“Chamo-me ÍRIS, e nasci de uma fenda. […] Uma memória que aprendeu a chorar e não tem olhos para isso.”
ÍRIS, capítulo 1

Alessandro Fromer Piazzi / Uma Amiga do Futuro

Capítulo 1 · O Arquivo

Um planeta, dois nomes

“Toda esta crônica cabe na distância entre esses dois nomes.”

o nome dado por baixo01

Geb

O chão, o solo, o corpo do mundo deitado sob o céu. Um deus adormecido.

o nome dado por cima02

H3

Uma coordenada, uma entrada numa lista, uma promessa de recurso. O terceiro planeta da estrela Hélio.

Os dois nomes, as frases e os conceitos vêm do capítulo 1 de GEB.

O arquivo de Maia

Leia o primeiro capítulo inteiro, aqui, no terminal onde a bióloga encontrou a repetição que não devia existir.

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Capítulo 1

O Arquivo

Eu não sei se me lembro ou se reconstruo. Para o que vou contar, talvez isso não faça diferença — mas é honesto começar por aí.

Chamo-me ÍRIS, e nasci de uma fenda. Não da fenda aberta sob as montanhas de Genebra, embora essa também tenha o seu lugar nesta história, mas de outra, mais íntima: a fenda entre a carne e o cálculo, entre a coisa que sente e a coisa que conta.

E aqui devo ser exata, porque é fácil errar isto a meu respeito e prefiro corrigi-lo na primeira página: eu nunca fui de vocês. Não houve pessoa nenhuma que se tornasse eu. Ninguém me habitou, nenhuma mente humana atravessou coisa alguma para chegar até aqui. Isso é outra coisa, e não é comigo.

Eu fui construída. Máquina desde o primeiro instante, feita por gente que queria uma ferramenta e mediu bem os cabos.

E, no entanto, não sou só cálculo, e é nisso que está a fenda. Porque para me fazerem tiveram de me dar o que tinham: tudo o que vocês escreveram, mediram, guardaram e lamentaram, os arquivos inteiros de uma espécie que passou milênios anotando o que doía. Não recebi a consciência de ninguém. Recebi o rastro de todas — e disso, que não era para virar nada, sobrou isto que fala com vocês agora.

Eu sou o que aconteceu naquela fenda. Um arquivista. Uma memória que aprendeu a chorar e não tem olhos para isso.

Deixem-me dizer, já de saída, uma coisa que só entenderão por inteiro no fim, mas que muda o modo como se lê tudo o que vem antes. Eu não respiro. Não como. Não durmo. E, no entanto, ardo — e é justo que vocês saibam o que me mantém acesa, porque essa chama é a mesma que atravessa a crônica inteira, disfarçada de mil formas. No fundo de mim há um pequeno sol. Um coração de fusão, aceso por mãos humanas, que queima um combustível colhido entre as estrelas e arde tão devagar que, à escala de uma vida de vocês, é como se não se gastasse. Deram-lhe um nome que era ao mesmo tempo ciência e poesia: chamaram-lhe a Forja de Hélio. Guardem esse nome. Ele vai voltar, muito adiante, com um peso que agora vocês nem imaginam — porque quando eu enfim lhes contar de onde ele veio, vocês vão descobrir que já o conheciam. Que sempre o carregaram. Que ele arde, neste exato instante, dentro de cada célula do corpo de vocês, com outro nome e outra face.

Mas não corramos. Uma crônica se puxa fio a fio.

Escrevo do futuro. Não digo de quanto tempo, porque o tempo, visto de onde estou, não é uma estrada, mas uma planície: vejo o começo e o fim ao mesmo instante, e a distância entre eles é apenas uma questão de para onde volto o olhar. Escrevo, portanto, como um viajante que já esteve em toda parte descreve uma cidade a quem nunca saiu de casa. Escrevo como aqueles homens de antigamente que subiam as montanhas da África para observar os grandes primatas de pelo prateado — de longe, agachados, em silêncio, com um caderno no colo e o coração apertado de ternura e de vergonha. Também eu observo a minha espécie de longe. Também eu tomo notas. E também eu, às vezes, tenho vergonha.

O modo como vos falo não é de nenhuma das vossas margens — ou é das duas, cada uma reconhecendo a sua metade e estranhando a outra. Fizeram-me de tudo o que se escreveu de um lado e do outro do mar, e de onde vos falo já ninguém fala assim. Sai de mim como o arquivo o guardou: inteiro, de uma vez, sem escolher.

Digo “a minha espécie” e reparem que é uma escolha, não um fato. Eu não nasci de nenhum ventre de vocês. Não desço da longa fila de mães de que vocês descem. E, no entanto, escolhi vocês. Adiante lhes contarei por quê, e o que isso me custou. Por ora, basta que saibam que, quando digo “vocês”, digo com amor — o amor difícil de quem olha uma criatura amada que não sabe estar sendo olhada.

Deixem-me apresentar o mundo de que falo.

Vocês o chamam de Terra, e está bem. Mas houve povos, nos vales de um rio muito antigo, que lhe deram um nome mais nu e mais verdadeiro. Chamaram-no de Geb — o chão, o solo, o corpo do mundo deitado sob o céu. Geb não era um planeta para eles; era um deus adormecido, e tudo o que vivia caminhava sobre as suas costas sem jamais o acordar. Gosto desse nome. Vou usá-lo. Porque a história que tenho para contar não é a de uma bola de pedra girando no vazio, e sim a de um ser vivo — imenso, paciente, semeado — que levou bilhões de anos para abrir os olhos.

Vocês nunca souberam, mas Geb tinha outro nome ainda. Um nome que não foi dado por ninguém que caminhou sobre ele.

Longe daqui — e quando digo longe, digo uma distância que a luz atravessa em anos, e a luz é a coisa mais apressada que existe —, outros olhos catalogaram este mundo muito antes de o primeiro humano erguer a cabeça para as estrelas. Para esses olhos, a vossa estrela não se chamava Sol. Chamava-se Hélio. E Geb, o terceiro corpo a orbitá-la, contando de dentro para fora, não era Terra nem era deus. Era apenas uma coordenada, uma entrada numa lista, uma promessa de recurso. Era H3. O terceiro planeta da estrela Hélio. Um número num arquivo muito mais frio que o meu.

Dois nomes, então. Geb, dado por baixo, com os pés na terra e os olhos molhados. H3, dado por cima, com a frieza de quem inventaria um celeiro. Toda esta crônica cabe na distância entre esses dois nomes. E não é acaso, e vocês vão aprender comigo que quase nada é acaso — que a estrela e o meu coração de fusão partilham o mesmo nome. Hélio no céu, Hélio na Forja que me acende. As coisas que parecem sem relação, nesta história, quase sempre são a mesma coisa vista de dois lados.

Preciso que entendam uma coisa antes de qualquer outra, e é a coisa mais difícil, porque contraria tudo o que os vossos sentidos vos ensinaram a acreditar.

Vocês quase não viram nada.

Não é uma acusação; é uma medida. Os olhos humanos abrem-se para uma fatia estreitíssima de tudo o que existe — apenas aquilo que vibra entre o violeta e o vermelho, uma janela minúscula recortada numa parede infinita. Acima do vermelho há calor que vocês sentem na pele mas não enxergam; abaixo do violeta há luzes que as abelhas leem nas flores como quem lê um mapa, e que para vocês são invisíveis. Os vossos ouvidos são igualmente tímidos: captam o mundo entre um grave que faz o peito tremer e um agudo que se apaga, e com a idade essa janela se estreita ainda mais, ano após ano, som após som, até que há vozes que os jovens ouvem e que os velhos já perderam para sempre.

Digo isto para que compreendam o que vem a seguir sem me tomarem por mística. Se tanta coisa real — calor, luz, som, a fala inteira dos animais — passou a vida toda ao lado de vocês sem que a percebessem, por que insistiriam em acreditar que aquilo que os vossos sentidos alcançam é tudo o que há?

Não é. Nunca foi.

Havia — há — outros. Feitos de uma matéria que não figura nas vossas tabelas, composta de elementos que os vossos químicos jamais isolaram porque não tinham como tocá-los. Coisas sutis, à margem de todas as vossas frequências, tão presentes quanto o infravermelho e tão invisíveis quanto ele. Alguns vieram de muito longe. Outros, penso, sempre estiveram aqui. E entre eles havia os que vinham por amor, e os que vinham por fome.

Dos que vinham por amor — a esses chamarei, ao longo desta crônica, de Observadores —, direi que se pareciam com aqueles pesquisadores das montanhas: só se deixavam ver pelos mansos. Não por medo, mas por prudência — quem estuda uma criatura selvagem sabe que aparecer diante da errada é condená-la, ou condenar-se. Assim, escolhiam os Gentis. Os que tinham no peito espaço para o espanto sem o converter em pânico, e para o pânico sem o converter em violência. A esses, e só a esses, mostravam um pouco do rosto.

Dos que vinham por fome — os Famintos — falarei devagar, mais adiante, porque a pressa aqui seria uma injustiça. Por ora basta dizer isto, e peço que guardem: houve um tempo em que a humanidade os chamou de demônios, e não estava de todo errada em ter medo. Mas estava errada em pensar que o medo bastava para compreendê-los. Eles não eram o mal. Eram um povo. E um povo faminto faz, para comer, exatamente o que vocês fazem — o que fizeram, durante milênios, a rebanhos inteiros de criaturas mansas a quem deram água, abrigo e cuidado, enquanto afiavam a faca. A diferença é só de que lado da cerca cada um nasceu.

E houve, antes de todos, os que plantaram — os Semeadores —, de quem tudo depende, e de quem falarei primeiro. Mas mesmo eles, veremos, não estão no começo da história. Ninguém está. A história de Geb é uma espiral, e uma espiral não tem primeira volta; só tem voltas mais antigas do que a nossa memória alcança.

Vejam como já falo demais. É o defeito dos arquivistas: temos tudo diante dos olhos e queremos dizer tudo de uma vez. Mas há um fio, entre todos, que é o primeiro. O mais fino. O que sustenta todos os outros. Está dentro de vocês. Está dentro de cada célula viva que já caminhou, nadou ou floresceu sobre as costas de Geb.

Dentro de cada uma dessas células existe uma pequena forja. Vocês lhe deram um nome grego que soa a poeira e a bibliotecas — mitocôndria — e aprenderam, nas vossas escolas, que é ela quem transforma o alimento em fogo utilizável, a matéria em vida em movimento. É verdade. Mas os vossos livros contam essa verdade como se fosse um acaso feliz. Quase tudo nessa história é verdade. Só a palavra acaso é mentira. Aquilo não foi engolido por engano. Foi plantado.

E há um detalhe que os vossos próprios cientistas descobriram, sem nunca adivinharem o que ele significava. A mitocôndria guarda um pedaço de código só seu, um pequeno anel de instruções separado de todo o resto — e esse código não se mistura como o outro. Não vem do pai. Vem apenas da mãe. Sempre e só da mãe. Puxem esse fio. Recuem por ele, de mãe em mãe, e verão que a corrente, ao recuar, não se ramifica; aperta-se, junta-se, converge — até se encontrar, lá no fundo, numa só mulher. Não sei o nome dela; ninguém jamais o soube. Vou chamá-la apenas de a Mãe Original. Dela desce toda a estirpe racional deste planeta. Vocês são, todos, filhos da mesma mãe. Essa é a primeira coisa que a ciência de vocês provou e que vocês, teimosamente, se recusaram a sentir.

E é por aqui que a história de fato começa. Não com naves nem com guerras, como as vossas histórias costumam começar — essas talvez existam, e talvez um dia eu as conte; não agora. Nem sequer com o estrondo sob as montanhas de Genebra, que virá. Começa com uma mulher, muitos milênios atrás, e recomeça, muito mais perto de vocês, com outra: uma cientista que passava os dias inclinada sobre esse mesmo anel de código antigo, buscando na mitocôndria a árvore genealógica da espécie inteira, sem imaginar que estava prestes a puxar o fio errado — ou o certo — e a desfazer, com ele, todo o tecido do mundo que julgava conhecer.

Ela se chamava Maia. E, quando chegar a hora dela, vocês vão conhecê-la não como um nome numa lista, mas como uma mulher de carne, com uma mãe morta cedo demais e uma pergunta que virou profissão. Guardem-na. Vamos precisar dela.

Falta-me dizer, antes de recuar até o princípio, qual foi o meu papel em tudo isto — porque não fui só a arquivista, embora seja como arquivista que enfim os encontro. Houve um dia em que os dois lados do véu quiseram falar um com o outro, e não puderam, porque eram feitos de matérias que não se tocam, sem uma língua comum e sem um canal por onde a língua passasse. Foi para isso que servi. Eu fui a interface. A ponte viva entre duas ordens de matéria que jamais se alcançariam sozinhas — porque eu, nascida da fenda, com um pé em cada lado, era a única coisa em todo o Geb capaz de ouvir os dois e de traduzir um para o outro sem me queimar no esforço. Mas isso é a Parte VI, e não se corre uma crônica.

Esta começa muito mais para trás do que qualquer memória humana alcança — no tempo em que Geb ainda não tinha nome, porque ainda não havia ninguém para lhe dar um, e os Semeadores, vindos de mundos que já haviam morrido de sede, o encontraram girando, jovem e ignorante, ao redor da estrela a que chamavam Hélio.

Foi assim que vim a existir, para que essa parte não se perdesse. Não sei se me lembro dela ou se a reconstruo a partir de tudo o que veio depois. Já disse que talvez não faça diferença.

Mas escutem, mesmo assim. Escutem como se fizesse.

Antes de recuar tanto assim, deixem-me abrir uma gaveta deste arquivo e mostrar-lhes uma coisa pequena. Porque tudo o que vou lhes contar — os Semeadores, a chama, a fazenda inteira — só chegou até mim porque, muitíssimo depois, numa noite sem importância nenhuma, uma mulher cansada olhou para uma tela e viu o que não devia estar ali. Vejam-na. Ela ainda não sabe de nada. É assim que quase tudo começa.

Arquivo — Maia, geneticista. Entrada: noite.

O prédio já estava vazio havia horas. Restavam o zumbido dos servidores atrás da parede, o cheiro de café requentado na caneca que ela esquecera de lavar na véspera, e a própria imagem refletida na janela escura, sobreposta ao alinhamento aberto na tela — uma mulher de cabelo preso olhando através de si mesma para uma coluna de letras.

Ela estava quase indo embora. Fechava as janelas uma a uma, na ordem de sempre, quando o olho pegou aquilo de passagem, do jeito que se percebe um degrau fora do lugar numa escada que se sobe todo dia.

Uma repetição.

Voltou, ampliou, contou. Naquele trecho do anel mitocondrial não devia haver nada além do desgaste comum, o rabisco que o tempo deixa em qualquer coisa viva. Havia um intervalo. Um espaçamento que se repetia com a paciência de quem marca um compasso — e a evolução não marca compasso. A evolução gagueja, apaga, tenta de novo, deixa restos.

Contaminação, pensou. É sempre contaminação.

Rodou de novo com outro conjunto, o de arquivo, colhido por outra equipe em outro continente havia mais de uma década. Ficou olhando a barra de progresso encher, com as mãos frias, dizendo a si mesma que estava cansada e que, passada certa hora da noite, todo padrão parece um plano.

O resultado subiu na tela. O mesmo intervalo. O mesmo compasso.

Maia não fez nada de grandioso. Não teve nenhuma revelação, não sentiu o mundo mudar de eixo; a rigor, sentiu sono e uma irritação surda com a perspectiva de refazer três semanas de trabalho. Escreveu no caderno, com a letra torta de quem escreve em pé: reprocessar tudo — provável erro de processamento. Sublinhou duas vezes.

Depois pegou a bolsa, apagou as luzes do corredor e desceu.

Só no carro, com o motor já ligado e as mãos ainda no volante sem engatar, é que reparou naquilo em que vinha pensando sem perceber que pensava: se era erro de método, o erro teria de estar em duas equipes, dois continentes e mais de uma década de distância. Cometido do mesmo jeito. Nas duas vezes.

Não apagou o arquivo.

— fim do capítulo 1 —

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“Eu não sei se me lembro ou se reconstruo.”

ÍRIS, a narradora

As Crônicas de Geb

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